Cultura Material Etc, 2018
Alfinete Galeria

A PAISAGEM PORTÁTIL DAS CULTURAS ATÁVICAS

Caminante no hay camino. Todo pasa y todo queda, pero lo nuestro es pasar, pasar haciendo caminos, caminos sobre la mar. (Antonio Machado)

A paisagem é uma trama de signos. A natureza, uma cenografia entrópica. Como podemos recuperar a experiência da natureza e da paisagem em nossa contemporaneidade globalizada? A exposição-instalação, Cultura Material Etc de Gisel Carriconde Azevedo projeta em suas formas e em suas narrativas, uma resposta subjetiva e pessoal a esta pergunta fundamental, tomando a dimensão da cultura como elemento inseparável do humano.

Geralmente apresentadas em instalações extremamente complexas, as obras de Carriconde são o resultado das conexões entre elementos visuais e objetos, relacionados com a história da arte, o desenho e a decoração. Esta instalação, pensada especialmente para o espaço de Alfinete Galeria, é composta por três obras que conseguem fundir escultura, pintura, gravura, fotografia, objetos e design. Nesse sentido este projeto sintetiza e ao mesmo tempo fecha o processo criativo realizado pela artista durante quase dez anos. Neste conjunto extremamente heterogêneo, duas obras destacam-se por sua originalidade e ao mesmo tempo como resumo de sua poética extremamente pessoal: Alegoria do estúdio da artista: 2009 a 2012 e Kleptoliths.

A primeira é realizada por um importante conjunto de imagens fotográficas que registram diferentes rios de América, Europa e África, montadas formando uma malha regular. A paleta de cores presente na obra, de um extremo refinamento, esta conformada por variados tons de azul, verde e cinza, que se relacionam à coloração que caracterizam as águas desses causes hídricos. Esse agradável conjunto abstrato de texturas sofre a interferência de palavras em inglês impressas em cada fotografia, palavras que definem ações relacionadas à manipulação de materiais. Uma possibilidade de leitura pode começar pelo titulo da obra, Alegoria do estúdio da artista: 2009 a 2012. Como sabemos uma alegoria nas artes visuais é a representação de conceitos abstratos através de formas humanas, animais ou de objetos; nesse sentido podemos entender que o espaço físico de criação do artista, seu estudio ou atelier, é o lugar onde os materiais são modificados, transformados ou adaptados através da ação física do criador. Ainda que Carriconde parece-nos sugerir poeticamente que este espaço não tem limites espaciais e flui, se modifica e muda, como muda o próprio criador, ou quiçá em um sentido metafísico panteísta, esta alegoria poderia ser transformado em uma complexa metáfora sobre como a criação artista estaria ligada com os lugares, a paisagem e a natureza.

Por outro lado, a obra Kleptoliths, é uma escultura conformada por uma mesa de vidro de uma sobriedade científica, onde foi depositado um conjunto de pedras coletadas em diferentes lugares do Brasil e da Europa. Em cada pedra podemos ver breves enunciados talhados em diferentes idiomas e que têm algum tipo de relação com o lugar onde foram encontradas. Por exemplo, a pedra coletada numa caverna no sul da França, tem a inscrição objet trouvé. Se a cultura material esta constituída por elementos materiais, tanto como das normas, rituais ou dos comportamentos que esses geram, a artista nos sugere que esta cultura esta definida por uma conexão ou uma condição atávica, relacionada à natureza. Se em nossa era globalizada onde tudo parece entrar nos protocolos de uma cultura padronizada, e onde a vida do artista estaria definida pela fantasia de uma permanente deriva, de um deambular errante, uma vida nômade, só limitada por alfândegas e aeroportos, Gisel Carriconde Azevedo parece apresentar, ao modo de um etnógrafo, as provas materiais que a cultura está conectada geologicamente com um território e uma geografia. Assim esse trabalho criador conectaria um tempo arcaico, vinculado com a terra e o água.

Manuel Neves
Vanves, março de 2018